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Na prática · 09 de 11

DUA e comunicação alternativa

Adaptar uma atividade depois de pronta funciona, mas cansa: é sempre um remendo, feito às pressas, para um estudante de cada vez. O DUA (Desenho Universal para a Aprendizagem) propõe inverter a ordem: planejar desde o início com caminhos variados, para que mais estudantes entrem na aula sem precisar de uma versão "à parte". E, para quem ainda não se comunica pela fala de forma funcional, a CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa) garante algo anterior a qualquer conteúdo: o direito de dizer e de ser entendido.

13 min de leituraPara: Professor(a) regente · Professor(a) do AEE · Coordenação e gestãoAtualizado em outubro de 2026
Ao final deste tema, você vai saber
  • os três princípios do DUA, em linguagem de sala
  • planejar uma aula com mais de um caminho desde o início
  • usar a CAA na sala comum, com recursos simples ou digitais
Em 30 segundos
  1. O DUA (Desenho Universal para a Aprendizagem) organiza o planejamento em três princípios: múltiplos meios de engajamento (o porquê), de representação (o quê) e de ação e expressão (o como). A versão atual das diretrizes do CAST é a 3.0, de julho de 2024.
  2. Planejar com DUA não é fazer três aulas: é oferecer, dentro de uma mesma aula, mais de uma porta de entrada, mais de um formato e mais de um jeito de mostrar o que se aprendeu, mantendo o mesmo objetivo para todos.
  3. A CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa) vai de uma prancha de papel a um aplicativo com voz. Quem usa CAA precisa encontrá-la disponível o tempo todo, inclusive na sala comum, e não só no atendimento especializado.
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Ideia centralA barreira está no desenho da aula, não no estudante. Quando o planejamento já nasce com variedade de caminhos, a adaptação individual vira ajuste fino, e não reconstrução.

De onde vem o DUA

A ideia de "desenho universal" nasceu na arquitetura: uma rampa bem planejada serve ao cadeirante, ao carrinho de bebê e a quem carrega uma mala. Na educação, o CAST, uma organização sem fins lucrativos dos Estados Unidos, transformou esse raciocínio em diretrizes para o planejamento de ensino, conhecidas internacionalmente como UDL (Universal Design for Learning). No Brasil usamos DUA (Desenho Universal para a Aprendizagem).

A legislação brasileira também usa o conceito. A LBI (Lei Brasileira de Inclusão, Lei 13.146/2015) define "desenho universal" no seu art. 3º e trata "adaptações razoáveis" como os ajustes necessários para cada pessoa, quando o desenho geral não basta. As duas coisas andam juntas: o DUA reduz o número de adaptações individuais; a adaptação razoável cobre o que sobrar.

O que mudou na versão 3.0 (2024)

Em julho de 2024 o CAST publicou a versão 3.0 das diretrizes, revisando a 2.2. A estrutura de três princípios foi mantida, mas o texto ficou mais centrado no estudante e passou a reconhecer a identidade de cada um (o "quem" da aprendizagem) como parte da variabilidade. Também passou a nomear vieses individuais, institucionais e sistêmicos como barreiras e a valorizar pertencimento e aprendizagem coletiva. O objetivo declarado deixou de ser formar "aprendizes especialistas" e passou a ser a agência do estudante: alguém que aprende com propósito e reflexão, com recursos e autenticidade, com estratégia e orientação para a ação.

Os três princípios, em linguagem de sala

Cada princípio do DUA corresponde a uma pergunta que o professor já faz quando planeja. O DUA só pede que a resposta não seja única.

PrincípioPerguntaNa prática, ofereça…
Engajamento
(o porquê)
Por que este estudante vai querer entrar e permanecer na tarefa?Temas que conversam com interesses e identidades da turma; escolhas reais (ordem, parceiro, formato); metas visíveis e curtas; um ambiente seguro para errar e pedir ajuda.
Representação
(o quê)
Como a informação chega até ele?O mesmo conteúdo em mais de um formato: fala + texto + imagem + objeto concreto; vocabulário explicado antes; ligação explícita com o que a turma já sabe.
Ação e expressão
(o como)
Como ele mostra o que entendeu?Responder escrevendo, falando, desenhando, montando, apontando ou usando CAA; apoios de organização (checklist, roteiro, modelo pronto).

Na versão 3.0, cada princípio se desdobra em três níveis, que ajudam a pensar em profundidade crescente: acesso (o estudante consegue chegar à tarefa?), apoio (consegue sustentá-la e construir sentido?) e função executiva (consegue, aos poucos, gerir sozinho o próprio aprender: regular emoções, construir conhecimento, desenvolver estratégias?). São nove diretrizes no total. Você não precisa decorá-las; vale mais lembrar a lógica: primeiro garantir a entrada, depois o apoio, por fim a autonomia.

Mito"DUA é preparar uma aula diferente para cada aluno."
Não é. O DUA é uma aula com mais de um caminho. O objetivo de aprendizagem é o mesmo para a turma; o que varia são as formas de acesso, de apoio e de resposta. É justamente isso que torna o DUA viável para quem tem 35 estudantes.
Mito"Com DUA, ninguém mais precisa de adaptação individual."
O DUA diminui muito as barreiras, mas alguns estudantes continuarão precisando de apoios específicos, registrados no PEI (Plano Educacional Individualizado). Pense no DUA como o piso comum, e na adaptação individual como o ajuste fino.

Exemplo resolvido: uma aula planejada com DUA

Vamos a um caso concreto. Turma de 4º ano, 30 estudantes, aula de Ciências sobre o ciclo da água. Entre eles estão a Lívia, que é autista e se desorganiza com instruções longas faladas; o Caio, que ainda está na fase silábica de escrita; e a Bia, que termina tudo muito antes e se entedia.

Objetivo único para a turma: explicar, com as próprias palavras ou recursos, as etapas evaporação, condensação e precipitação, e relacioná-las a algo do cotidiano.

MomentoComo eraComo fica com DUA
Abertura"Hoje vamos estudar o ciclo da água. Abram o livro na página 42."Pergunta-problema com objeto real: um copo gelado "suando" na mesa. "De onde veio essa água?" A agenda da aula fica no quadro em três passos com ícones (engajamento e acesso).
ExplicaçãoLeitura do texto do livro em voz alta.Explicação curta + esquema circular com setas e desenhos + vídeo de 2 minutos sem narração rápida. Palavras-chave (evaporar, condensar, precipitar) ficam num cartaz com imagem ao lado (representação).
AtividadeResponder cinco perguntas por escrito.Escolha entre três produtos com o mesmo critério: (a) completar o esquema com palavras; (b) montar o ciclo com cartões de imagem e explicar oralmente; (c) criar uma história em quadrinhos de uma gota de água (ação e expressão).
Fechamento"Alguma dúvida?"Cada um mostra, no esquema da parede, uma etapa e diz um exemplo do dia a dia. Quem quiser pode só apontar e usar o cartão de palavra.

Repare no que aconteceu. A Lívia ganhou uma agenda visual e instruções curtas, sem nenhuma atividade "diferente". O Caio pode mostrar que entendeu o conceito pela opção (b), sem que a escrita, que ainda está em construção, esconda o que ele sabe de Ciências. A Bia escolhe a opção (c) e pode ir além, incluindo o que acontece com a água subterrânea. E vários outros estudantes, que nem estavam no seu radar, também se beneficiaram.

Roteiro de cinco perguntas para planejar com DUA
  1. Qual é o objetivo de aprendizagem que não pode mudar?
  2. Como vou despertar o interesse e mostrar para que serve? (engajamento)
  3. Em quantos formatos a informação principal vai aparecer? Pelo menos dois. (representação)
  4. De quantas formas o estudante pode responder? Pelo menos duas. (ação e expressão)
  5. Quais apoios ficam disponíveis para quem quiser: modelo, checklist, glossário, parceiro? (apoio e função executiva)
Exemplo em sala

No Ensino Médio, a professora Renata planeja uma aula de Geografia sobre urbanização. Em vez de um texto único, ela oferece o mesmo conteúdo em texto curto, infográfico e um podcast de cinco minutos. Para o produto final, os grupos escolhem entre um mapa comentado, um vídeo de um minuto ou uma carta ao prefeito. O critério de avaliação é o mesmo para todos: identificar duas causas e duas consequências da urbanização na cidade deles.


CAA: comunicação para quem ainda não tem a fala como caminho principal

A CAA (Comunicação Aumentativa e Alternativa) reúne recursos e estratégias que complementam (aumentativa) ou substituem (alternativa) a fala. Ela serve a estudantes com deficiência motora que afeta a fala, a algumas pessoas autistas, a estudantes com deficiência intelectual e a muitos outros. A LBI inclui expressamente os "modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação" na sua definição de comunicação, e a CAA é um tipo de tecnologia assistiva. Em novembro de 2025, a Lei 15.249 alterou a LBI: definiu a "pessoa com necessidades complexas de comunicação" e passou a prever, no capítulo da educação (art. 28), sistemas de CAA de baixa tecnologia no AEE (Atendimento Educacional Especializado) para esses estudantes.

Mito"Se usar prancha, a criança vai desistir de falar."
A CAA não compete com a fala. Ela oferece um canal de comunicação enquanto a fala se desenvolve, ou quando ela não é funcional. Ter como se fazer entender costuma reduzir a frustração e ampliar a interação. Decisões sobre o sistema de comunicação de cada estudante são tomadas em conjunto com o AEE (Atendimento Educacional Especializado), a família e, quando houver, profissionais como fonoaudiólogos.

Baixa e alta tecnologia

TipoExemplosPontos fortesCuidados
Sem tecnologiaGestos, expressões, olhar, sinais combinados.Sempre disponível.Precisam ser conhecidos por todos que convivem com o estudante.
Baixa tecnologiaCartões com símbolos, pranchas de papel plastificado, pastas de comunicação, quadro de rotina, cartões "sim/não".Baratas, rápidas de fazer, não dependem de bateria.Vocabulário limitado ao que cabe na prancha; precisam ser atualizadas.
Alta tecnologiaTablets ou celulares com aplicativos de CAA que falam a mensagem, vocalizadores, acionadores.Vocabulário amplo, voz, frases mais complexas.Custo, manutenção, carga; ter sempre um plano B em papel.

Os símbolos podem ser fotos reais, desenhos ou pictogramas. Existem bancos gratuitos de pictogramas na internet, como o ARASAAC. A escolha do tipo de símbolo depende do estudante: alguns precisam começar com fotos do objeto real; outros já usam pictogramas abstratos. Essa avaliação é feita, em geral, com o professor do AEE.

O que o professor regente faz com a CAA

Você não precisa ser especialista em CAA para fazer diferença. O papel do professor da sala comum é, principalmente, garantir que a comunicação aconteça na aula:

  • Deixe a prancha ao alcance, sempre. Prancha guardada na mochila não é comunicação.
  • Modele: ao falar com o estudante, aponte os símbolos enquanto fala ("Agora... pintar... com azul"). Assim ele aprende usando, como toda criança aprende a falar ouvindo.
  • Espere a resposta. Comunicar com símbolos leva mais tempo. Conte mentalmente até dez antes de reformular a pergunta.
  • Faça perguntas que a prancha permite responder. Se a prancha tem "sim", "não", cores e animais, pergunte de forma que ele possa escolher.
  • Crie pranchas temáticas com o AEE para cada unidade: na aula do ciclo da água, os cartões "sol", "nuvem", "chuva", "rio", "quente" e "frio" permitem que a Lívia ou outro usuário de CAA participe da explicação final.
  • Envolva a turma. Colegas que aprendem a prancha viram parceiros de comunicação no recreio, no trabalho em grupo, na fila.
Atenção

Nunca retire a prancha ou o dispositivo como castigo, nem condicione o acesso a "bom comportamento". A CAA é a voz do estudante. Tirá-la é tirar o direito de dizer "estou com dor", "não quero" ou "preciso de ajuda".

Como montar uma prancha temática simples em 15 minutos
  1. Escolha de 6 a 12 palavras essenciais da aula, incluindo verbos (ver, colocar, mostrar) e não só substantivos.
  2. Inclua sempre palavras de função social: "sim", "não", "ajuda", "terminei", "de novo".
  3. Use símbolos do mesmo estilo e tamanho, com a palavra escrita embaixo.
  4. Organize em grade fixa, sempre na mesma posição para as palavras que se repetem.
  5. Plastifique ou cubra com fita larga e teste com o estudante antes da aula. Combine o formato com o professor do AEE.
Para pensar na sua turma

Pegue a próxima aula que você vai dar. Em quantos formatos a informação principal chega à turma? De quantas formas os estudantes podem mostrar o que aprenderam? Se a resposta for "um" nas duas perguntas, escolha apenas uma mudança para esta semana. E, se houver na turma alguém que usa CAA, pergunte-se: em que momento da minha aula ele pode, de fato, dizer alguma coisa?

Um caso da escola

O Rafael também tem o que dizer

O Rafael, do 2º ano, tem paralisia cerebral, compreende bem e se comunica com uma prancha de figuras. Na unidade sobre animais, a professora Cida percebe que ele só observa: a prancha tem "sim", "não" e cores, e nenhuma palavra da aula. Às vezes ela fica na mochila.

O que fazer

Cida combina com o professor do AEE uma prancha temática da unidade. Escolhe de 6 a 12 palavras, com verbos, e inclui "sim", "não", "ajuda" e "terminei". Usa símbolos do mesmo estilo, com a palavra embaixo, em grade fixa. A prancha fica sempre ao alcance. Ela aponta os símbolos enquanto fala, faz perguntas que a prancha permite responder e espera a resposta. A turma aprende a prancha para conversar com Rafael.

Teste seu entendimento

5 perguntas sobre este tema

0/5

Escolha uma resposta. Cada pergunta mostra a explicação logo depois.

Para levar à sala

Nesta semana

  • Escolha sua próxima aula e apresente a informação principal em pelo menos dois formatos, como fala e esquema com imagens.
  • Ofereça na próxima atividade duas formas de resposta com o mesmo critério, como escrever ou montar com cartões e explicar oralmente.

Mais ideias nos checklists.

Para a coordenação: roteiro do encontro de formação (50 min)

Antes do encontro: Leia o tema "DUA e comunicação alternativa", com atenção ao exemplo da aula sobre o ciclo da água.

  1. (5 min) Abertura: Na sua última aula, de quantas formas a turma podia mostrar o que aprendeu?
  2. (15 min) Em duplas, cada professor aplica o roteiro de cinco perguntas do DUA a uma aula que vai dar na próxima semana.
  3. (15 min) Em grupos, montem uma prancha temática para uma unidade: de 6 a 12 palavras, com verbos e palavras de função social.
  4. (10 min) No grupo todo, cada dupla apresenta uma mudança no plano e a coordenação lista o que levar ao professor do AEE.
  5. (5 min) Combinado: Até o próximo encontro, cada professor aplica uma mudança de DUA em uma aula e conta o que viu.